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quarta-feira, 9 de junho de 2010

Por que ler os clássicos

Ítalo Calvino

Comecemos com algumas propostas de definição.

1. Os clássicos são aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer: “Estou relendo…” e nunca “Estou lendo…”.
Isso acontece pelo menos com aquelas pessoas que se consideram “grandes leitores”; não vale para a juventude, idade em que o encontro com o mundo e com os clássicos como parte do mundo vale exatamente enquanto primeiro encontro.

O prefixo reiterativo antes do verbo ler pode ser uma pequena hipocrisia por parte dos que se envergonham de admitir não ter lido um livro famoso. Para tranqüilizá-los, bastará observar que, por maiores que possam ser as leituras “de formação” de um indivíduo, resta sempre um número enorme de obras que ele não leu.

Quem leu tudo de Heródoto e de Tucídides levante a mão. E de Saint-Simon? E do cardeal de Retz? E também os grandes ciclos romanescos do Oitocentos são mais citados do que lidos. Na França, se começa a ler Balzac na escola, e pelo número de edições em circulação, se diria que continuam a lê-lo mesmo depois. Mas na Itália, se fosse feita uma pesquisa, temo que Balzac apareceria nos últimos lugares. Os apaixonados por Dickens na Itália constituem uma restrita elite de pessoas que, quando se encontram, logo começam a falar de episódios e personagens como se fossem de amigos comuns. Faz alguns anos, Michel Butor, lecionando nos Estados Unidos, cansado de ouvir perguntas sobre Emile Zola, que jamais lera, decidiu ler todo o ciclo dos Rougon-Macquart. Descobriu que era totalmente diverso do que pensava: uma fabulosa genealogia mitológica e cosmogônica, que descreveu num belíssimo ensaio.


Isso confirma que ler pela primeira vez um grande livro na idade madura é um prazer extraordinário: diferente (mas não se pode dizer maior ou menor) se comparado a uma leitura da juventude. A juventude comunica ao ato de ler como a qualquer outra experiência um sabor e uma importância particulares; ao passo que na maturidade apreciam-se (deveriam ser apreciados) muitos detalhes, níveis e significados a mais. Podemos tentar então esta outra fórmula de definição:


2. Dizem-se clássicos aqueles livros que constituem uma riqueza para quem os tenha lido e amado; mas constituem uma riqueza não menor para quem se reserva a sorte de lê-los pela primeira vez nas melhores condições para apreciá-los.


De fato, as leituras da juventude podem ser pouco profícuas pela impaciência, distração, inexperiência das instruções para o uso, inexperiência da vida. Podem ser (talvez ao mesmo tempo) formativas no sentido de que dão uma forma às experiências futuras, fornecendo modelos, recipientes, termos de comparação, esquemas de classificação, escalas de valores, paradigmas de beleza: todas, coisas que continuam a valer mesmo que nos recordemos pouco ou nada do livro lido na juventude. Relendo o livro na idade madura, acontece reencontrar aqueles constantes que já fazem parte de nossos mecanismos interiores e cuja origem havíamos esquecido. Existe uma força particular da obra que consegue fazer-se esquecer enquanto tal, mas que deixa sua semente. A definição que dela podemos dar então será:

3. Os clássicos são livros que exercem uma influência particular quando se impõem como inesquecíveis e também quando se ocultam nas sobras da memória, mimetizando-se como inconsciente coletivo ou individual.

Por isso, deveria existir um tempo na vida adulta dedicado a revisitar as leituras mais importantes da juventude. Se os livros permaneceram os mesmos (mas também eles mudam, à luz de uma perspectiva histórica diferente), nós com certeza mudamos, e o encontro é um acontecimento totalmente novo.


Portanto, usar o verbo ler ou o verbo reler não tem muita importância. De fato, poderíamos dizer:

4. Toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta como a primeira.

5. Toda primeira leitura de um clássico é na realidade uma releitura.

A definição 4 pode ser considerada corolário desta:


6. Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer.
Ao passo que a definição 5 remete para uma formulação mais explicativa, como:

7. Os clássicos são aqueles livros que chegam até nós trazendo consigo as marcas das leituras que precederam a nossa e através de si os traços que deixaram na cultura ou nas culturas que atravessaram (ou mais simplesmente na linguagem ou nos costumes).

Isso vale tanto para os clássicos antigos quanto para os modernos. Se leio a Odisséia, leio o texto de Homero, mas não posso esquecer tudo aquilo que as aventuras de Ulisses passaram a significar durante os séculos e não posso deixar de perguntar-me se tais significados estavam implícitos no texto ou se são incrustações, deformações ou dilatações. Lendo Kafka, não posso deixar de comprovar ou de rechaçar a legitimidade do adjetivo kafkiano, que costumamos ouvir a cada quinze minutos, aplicado dentro e fora de contexto. Se leio Pais e filhos de Turgueniev ou Os possuídos de Dostoievski não posso deixar de pensar em como essas personagens continuaram a reencarnar-se até nossos dias.

A leitura de um clássico deve oferecere-nos alguma surpresa em relação à imagem que dele tínhamos. Por isso, nunca será demais recomendar a leitura direta dos textos originais, evitando o mais possível bibliografia crítica, comentários, interpretações. A escola e a universidade deveriam servir para fazer entender que nenhum livro que fala de outro livro diz mais sobre o livro em questão; mas fazem de tudo para que se acredite no contrário. Existe uma inversão de valores muito difundida segundo a qual a introdução, o instrumental crítico, a bibliografia são usados como cortina de fumaça para esconder aquilo que o texto tem a dizer e que só pode dizer se o deixarmos falar sem intermediários que pretendam saber mais do que ele. Podemos concluir que:

8. Um clássico é uma obra que provoca incessantemente uma nuvem de discursos críticos sobre si, mas continuamente as repele para longe.

O clássico não necessariamente nos ensina algo que não sabíamos; às vezes descobrimos nele algo que sempre soubéramos (ou acreditávamos saber) mas desconhecíamos que ele o dissera primeiro (ou que de algum modo se liga a ele de maneira particular). E mesmo esta é uma surpresa que dá muita satisfação, como sempre dá a descoberta de uma origem, de uma relação, de uma pertinência. De tudo isso poderíamos derivar uma definição do tipo:

9. Os clássicos são livros que, quanto mais pensamos conhecer por ouvir dizer, quando são lidos de fato mais se revelam novos, inesperados, inéditos.

Naturalmente isso ocorre quando um clássico “funciona” como tal, isto é, estabelece uma relação pessoal com quem o lê. Se a centelha não se dá, nada feito: os clássicos não são lidos por dever ou por respeito mas só por amor. Exceto na escola: a escola deve fazer com que você conheça bem ou mal um certo número de clássicos dentre os quais (ou em relação aos quais) você poderá depois reconhecer os “seus” clássicos. A escola é obrigada a dar-lhe instrumentos para efetuar uma opção: mas as escolhas que contam são aquelas que ocorrem fora e depois de cada escola.

E só nas leituras desinteressadas que pode acontecer deparar-se com aquele que se torna o “seu” livro. Conheço um excelente historiador da arte, homem de inúmeras leituras e que, dentre todos os livros, concentrou sua preferência mais profunda no Documentos de Pickwick[*] e a propósito de tudo cita passagens provocantes do livro de Dickens e associa cada fato da vida com episódios pickwickianos. Pouco a pouco ele próprio, o universo, a verdadeira filosofia tomaram a forma do Documento de Pickwick numa identificação absoluta. Por esta via, chegamos a uma idéia de clássico muito elevada e exigente:

10. Chama-se de clássico um livro que se configura como equivalente do universo, à semelhança dos antigos talismãs.
Com esta definição nos aproximamos de idéia de livro total, como sonhava Mallarmé. Mas um clássico pode estabelecer uma relação igualmente forte de oposição, de antítese. Tudo aquilo que Jean-Jacques Rousseau pensa e faz me agrada, mas tudo me inspira um irresistível desejo de contradizê-lo, de criticá-lo, de brigar com ele. Aí pesa a sua antipatia particular num plano temperamental, mas por isso seria melhor que o deixasse de lado; contudo não posso deixar de incluí-lo entre os meus autores. Direi portanto:

11. O “seu” clássico é aquele que não pode ser-lhe indiferente e que serve para definir a você próprio em relação e talvez em contraste com ele.

Creio não ter necessidade de justificar-me se uso o termo clássico sem fazer distinções de antiguidade, de estilo, de autoridade. (Para a história de todas essas acepções do termo, consulte-se o exaustivo verbete “Clássico” de Franco Fortini na Enciclopédia Einaudi, vol. III). Aquilo que distingue o clássico no discurso que estou fazendo talvez seja só um efeito de ressonância que vale tanto para uma obra antiga quanto para uma moderna mas já com um lugar próprio numa continuidade cultural. Poderíamos dizer:

12. Um clássico é um livro que vem antes de outros clássicos; mas quem leu antes os outros e depois lê aquele, reconhece logo o seu lugar na genealogia.

A esta altura, não posso mais adiar o problema decisivo de como relacionar a leitura dos clássicos com todas as outras leituras que não sejam clássicas. Problema que se articula com perguntas como: “Por que ler os clássicos em vez de concentrar-nos em leituras que nos façam entender mais a fundo o nosso tempo?” e “Onde encontrar o tempo e a comodidade da mente para ler clássicos, esmagados que somos pela avalanche de papel impresso da atualidade?”.

É claro que se pode formular a hipótese de uma pessoa feliz que dedique o “tempo-leitura” de seus dias exclusivamente a ler Lucrécio, Luciano, Montaigne, Erasmo, Quevedo, Marlowe, o Discours de la méthode, Wilhelm Meister, Coleridge, Ruskin, Proust e Valéry, com algumas divagações para Murasaki ou para as sagas islandesas. Tudo isso sem ter de fazer resenhas do último livro lançado nem publicações para o concurso de cátedra e nem trabalhos editoriais sob contrato com prazos impossíveis. Essa pessoa bem-aventurada, para manter sua dieta sem nenhuma contaminação, deveria abster-se de ler os jornais, não se deixar tentar nunca pelo último romance nem pela última pesquisa sociológica. Seria preciso verificar quanto um rigor semelhante poderia ser justo e profícuo. O dia de hoje pode ser banal e mortificante, mas é sempre um ponto em que nos situamos para olhar para a frente ou para trás. Para poder ler os clássicos, temos de definir “de onde” eles estão sendo lidos, caso contrário tanto o livro quanto o leitor se perdem numa nuvem atemporal. Assim, o rendimento máximo da leitura dos clássicos advém para aquele que sabe alterná-la com a leitura de atualidade numa sábia dosagem. E isso não presume necessariamente uma equilibrada calma interior: pode ser também o fruto de um nervosismo impaciente, de uma insatisfação trepidante.

Talvez o ideal fosse captar a atualidade como o rumor do lado de fora da janela, que nos adverte dos engarrafamentos do trânsito e das mudanças do tempo, enquanto acompanhamos o discurso dos clássicos, que soa claro e articulado no interior da casa. Mas já é suficiente que a maioria perceba a presença dos clássicos como um reboar distante, fora do espaço invadido pelas atualidades como pela televisão a todo volume. Acrescentemos então:

13. É clássico aquilo que tende a relegar as atualidades à posição de barulho de fundo, mas ao mesmo tempo não pode prescindir desse barulho de fundo.

14. É clássico aquilo que persiste como rumor mesmo onde predomina a atualidade mais incompatível.
Resta o fato de que ler os clássicos parece estar em contradição com nosso ritmo de vida, que não conhece os tempos longos, o respiro do otium humanista; e também em contradição com o ecletismo da nossa cultura, que jamais saberia redigir um catálogo do classicismo que nos interessa.

Eram as condições que se realizavam plenamente para Leopardi, dada a sua vida no solar paterno, o culto da antiguidade grega e latina e a formidável biblioteca doada pelo pai Monaldo, incluindo a literatura italiana completa, mais a francesa, com exclusão dos romances e em geral das novidades editoriais, relegadas no máximo a um papel secundário, para conforto da irmã (“o teu Stendhal”, escrevia a Paolina). Mesmo suas enormes curiosidades científicas e históricas, Giacomo as satisfazia com textos que não eram nunca demasiado up-to-date: os costumes dos pássaros de Buffon, as múmias de Federico Ruysch em Fontenelle, a viagem de Colombo em Robertson.

Hoje, uma educação clássica como a do jovem Leopardi é impensável, e sobretudo a biblioteca do conde Monaldo explodiu. Os velhos títulos foram dizimados, mas os novos se multiplicam, proliferando em todas as literaturas e culturas modernas. Só nos resta inventar para cada um de nós uma biblioteca ideal de nossos clássicos; e diria que ela deveria incluir uma metade de livros que já lemos e que contaram para nós, e outra de livros que pretendemos ler e pressupomos possam vir a contar, separando uma seção a ser preenchida pelas surpresas, as descobertas ocasionais.
Verifico que Leopardi é o único nome da literatura italiana que citei. Efeito da explosão da biblioteca. Agora deveria reescrever todo o artigo, deixando bem claro que os clássicos servem para entender quem somos e aonde chegamos e por isso os italianos são indispensáveis justamente para serem confrontados com os estrangeiros, e os estrangeiros são indispensáveis exatamente para serem confrontados com os italianos.

Depois deveria reescrevê-lo ainda uma vez para que não se pense que os clássicos devem ser lidos porque “servem” para qualquer coisa. A única razão que se apode apresentar é que ler os clássicos é melhor do que não ler os clássicos.
E se alguém objetar que não vale a pena tanto esforço, citarei Cioran (não um clássico, pelo menos por enquanto, mas um pensador contemporâneo que só agora começa a ser traduzido na Itália): “Enquanto era preparada a cicuta, Sócrates estava aprendendo uma ária com a flauta. ‘Para que lhe servirá?’, perguntaram-lhe. ‘Para aprender esta ária antes de morrer’”.

Ítalo Calvino
______________________________

[*] A referida obra de Dickens foi editada no Brasil como As aventuras do Sr. Pickwick. (Nota da EL)

Original: CALVINO, Ítalo. Por que ler os clássicos. In: _________________________. Por que ler os clássicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1993. p.9-16.

Proteste Já: USP sem biblioteca

Programa CQC foi ao ar no dia 31 de maio de 2010. Livros da biblioteca da Faculdade de Direito da USP foram abandonados e alunos são impedidos de estudarem.


Bibliotecas e copistas




No seu esforço de salvaguarda intelectual, o que a Igreja ensinou em primeiro lugar à humanidade foi o respeito pelo livro. Amava-se, venerava-se e rodeava-se de zelosos cuidados esse pesado caderno de pergaminho que continha a palavra de Deus ou de um de seus fiéis, e que, aliás, era raro e custava caro: uma biblioteca de 900 manuscritos era considerada imensa e causava espanto. “Morre desonrado quem não ama os livros”, dizia um provérbio; e “um claustro sem livros é um castelo sem arsenal”, dizia São Bernardo. As preciosas obras andavam de convento em convento, para que pudessem ser copiadas, e, no período negro das invasões normandas, a perda das bibliotecas era um dos desastres mais cruelmente sentidos.

A imagem do monge copista, debruçado sobre a sua escrivaninha ao longo de toda a jornada, caligrafando ou iluminando as páginas de um Evangelho ou um Saltério, é uma daquelas que se fixam em todas as memórias. Essas multidões de anônimos a quem devemos o conhecimento que temos de Boécio, Santo Agostinho, São Jerônimo, como também de Virgílio, Terêncio, Ovídio e Horácio – esses escribas de Deus, graças aos quais a inteligência humana conservou o contato com o seu passado -, deixaram-nos uma recordação viva, acompanhada de gratidão. Havia séculos que existiam centros muito célebres de cópias – e continuaram a existir do século XI ao século XIV: Saint-Gall, Reichenau, Fleury-sur-Loire, Corbie e Mont Saint-Michel. Outros foram-se desenvolvendo, como Saint-Germain-des-Prés em Paris, ou Saint-Martial em Limoges. Cada um tinha o seu estilo no modo de traçar a letra – a antiga ou, depois, a uncial, derivada da minúscula carolíngia -, e sobretudo na arte de iluminar as maiúsculas iniciais ou de compor, numa página inteira, as maravilhosas miniaturas que nos encantam os olhos. Assim, em Corbie, manteve-se um estilo proveniente da tradição carolíngia, constituído por uma extraordinária amálgama de vida e de abstração. Em Saint-Martial de Limoges, os iluminadores filiaram-se visivelmente à escola dos vitralistas e esmaltadores, o que resultou num gênero novo, com pequenas cenas regularmente dispostas. Já das oficinas de Paria começaram a sair essas obras-primas de realismo e liberdade que são os Saltérios de São Luís, em exposição na Biblioteca Nacional e no Museu Condé de Chantilly.

É difícil imaginar o tempo que era necessário para realizar essas obras. O número de linhas, em certas cópias da Bíblia, deixa-nos confusos. E a cor das miniaturas, obtida por camadas sucessivas, exigia, depois da secagem de cada uma, semanas de espera para o mais ínfimo pormenor. E assim, valendo-se do tempo, os copistas puseram-no a seu serviço e, no brilho do seu ouro, dos seus azuis luminosos, das suas púrpuras e dos seus tons profundos de violeta, esses artistas do manuscrito apresentam-nos ainda hoje a sua obra na intacta perfeição de uma eterna juventude.

Quando, no século XIII, a cultura saiu dos conventos e das catedrais, e se instalou nas Universidades, os copistas seguiram o mesmo caminho. Sob a direção de mestres que eram clérigos, criaram-se oficinas dirigidas por leigos. As de Paris, centro intelectual da Europa, foram numerosas. Guillebert de Metz, no princípio do século XIV assegura que, espalhados pela capital e em torno dela, havia sessenta mil copistas. O manuscrito tornou-se então uma indústria e a miniatura passou a ser feita em série. Mas isso não impediu que continuassem a surgir verdadeiras obras-primas, como o Breviário de Belleville, que Jean Belleville e a sua oficina realizaram por volta de 1320.


NOTA: É interessante detalhar os métodos de trabalho dos copistas, segundo pesquisas recentes. O modelo da obra (exemplar) era depositado em casa de uma “livreiro estacionário”, depois de ter sido examinado por mestres especialistas designados pela Universidade. Estava dividido em cadernos ou peças numeradas. O mestre, estudante ou escriba profissional que quisesse transcrever determinada obra, alugava o modelo, peça por peça. Logo que tivesse copiado uma, entregava-a de volta. Podia acontecer que, por qualquer motivo, a peça 3, por exemplo, lhe fosse dada antes da peça 2; neste caso, ou deixava no seu caderno o espaço necessário, com risco de ter de se utilizar das margens, ou, se fosse pouco escrupuloso, não respeitava a ordem das peças, o que, durante muito tempo, deixou os filólogos perplexos. A lista dos exemplares disponíveis nos livreiros era anunciada na Itália pelo bedel das escolas; na França, era exposta nos dominicanos ou nos franciscanos, no dia em que os universitários assisitam a um ofício.

Fonte: Daniel-Rops, A Igreja das Catedrais e das Cruzadas, Quadrante, págs 339-340.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Indicação de livros de Biblioteconomia

O biblio2011 divulga dicas de leituras!!!!!
não percam!!!!

Acessem o link:

As cinco leis da biblioteconomia
http://www.briquetdelemos.com.br/cinco-leis-da-biblioteconomia-as.html

Rafael e Adriano

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Obesos de informação, famintos de sentido

O Grito - Edvard Munch 1863-1944
Obesos de informação, famintos de sentido

A força do sentimento varia, mas raramente me livro dele. Vivo com a sensação difusa de estar perdendo algo. O dia não cabe no dia. Quero fazer mais coisas do que posso, quero saber mais do que sei que sou capaz de assimilar. O meu corpo-a-corpo contra a ansiedade do tempo e a dispersão da atenção é uma batalha sem trégua.

Fala-se muito na sobrecarga de informação a que estamos submetidos. É verdade. A revolução tecnológica em curso multiplica de modo vertiginoso as possibilidades de comunicação e acesso a todo tipo de informações. Uma fibra ótica da espessura de um fio de cabelo comporta o equivalente a 500 canais de TV simultâneos. O corpus platônico vai todo num CD.

Vivemos sob um bombardeio cerrado de estímulos, cercados de sons, rótulos, slogans e imagens por todos os lados. Surfamos pelas telas e virtualidades do dia como que sitiados por um pelotão de mensagens e apelos desconexos clamando por estilhaços de nossa atenção.

Tudo isso, não nego, é parte da realidade. Mas quando observo à minha volta e reflito com mais cuidado sobre o que se passa comigo, concluo que é apenas um dos lados -- o mais óbvio -- da questão.

É sem dúvida confortável alimentar a crença de que somos vítimas passivas do sequestro e invasão forçada de nossas mentes por forças externas; de que a sobrecarga de informação que nos aflige é uma avalanche sob a qual vivemos, a contragosto, soterrados. Que este seja o aspecto mais saliente e imediato de nossa experiência, não duvido. O que é preciso considerar, contudo, é que somos em larga medida cúmplices do problema que enfrentamos.

Olhar humano

Ao banquete pantagruélico de mensagens e informações que nos é oferecido e empurrado a cada instante corresponde a nossa não menos formidável gula faustiana. Nada, ao que parece, sacia. A oferta alimenta a demanda; a demanda estimula a oferta. À aceleração vertiginosa do tempo e à multiplicação dos meios e estímulos que nos acossam corresponde a nossa espantosa insaciabilidade e a incontinência do nosso desejo por mais.

O assédio, é certo, existe. Mas, se ele vinga, é porque encontra terreno fértil no apetite que nos devora. A tortura que nos oprime e que nos torna alheios a nós mesmos não vem de fora, mas tem raízes na nossa incapacidade interna de lidar com o mundo que estamos criando e que nos escapa e amedronta como um ser hostil. A vítima é o algoz.

O que está acontecendo? O modelo que me ocorre, sempre que penso no problema da atenção estilhaçada e da sobrecarga de informação, baseia-se numa analogia com o funcionamento do nosso aparelho perceptivo.

Os órgãos sensoriais que nos ligam ao mundo são extremamente seletivos naquilo que registram e transmitem ao cérebro. O olho humano, por exemplo, não é capaz de captar todo o espectro de energia eletromagnética existente -- tudo o que seria em tese passível de ser visto --, mas apenas uma pequena faixa intermediária chamada "espectro visível".

O restante do espectro (cerca de 98% do total) não chega a ser registrado pelo olho, o que felizmente não se revelou fatal, pelo menos até aqui, para a nossa capacidade de sobrevivência no processo evolutivo. É por isso que os raios ultravioleta, por exemplo, estão fora do "espectro visível" humano, mas são captados pelo aparelho visual das abelhas, para cuja sobrevivência são cruciais.
O mesmo se aplica aos demais sentidos. O ouvido humano é capaz de detectar vibrações sonoras entre 20 e 20.000 ciclos por segundo. Os sons que circulam fora desses limites, como as ondas hertzianas que animam os aparelhos de rádio, escapam da teia do nosso equipamento auditivo.

Suponha, porém, que uma súbita mutação genética reduza drasticamente a seletividade natural dos nossos sentidos. O que aconteceria se, de repente, nós tivéssemos que passar a lidar com toda uma gama extra e uma carga torrencial de percepções visuais e auditivas com a qual não estamos habituados?
O ganho de sensibilidade seria tangível. "Se as portas da percepção se desobstruíssem", sonhava o místico-romântico William Blake, "tudo se revelaria ao homem tal qual é, infinito". O problema é saber se estaríamos em condições de assimilar e usar devidamente o fantástico acréscimo de informação sensível que isso acarretaria.

Seletividade

O ponto crucial é que existe uma adequação profunda entre a constituição do nosso aparelho perceptivo, de um lado, e a nossa capacidade de processamento de impressões sensíveis, de outro. O mais provável é que um súbito salto qualitativo em nosso equipamento sensorial produzisse não a revelação mística imaginada por Blake, mas um terrível engarrafamento cerebral, gerando um estado de confusão e perplexidade do qual apenas lentamente conseguiríamos nos recuperar.
Tudo está ligado a tudo. Nada é igual a nada. É a brutal seletividade dos nossos sentidos que nos protege da infinita complexidade do universo. A ordem que percebemos no mundo é essencialmente devida à pobreza de nossa experiência. Imagine o que significaria, por exemplo, passar a captar e ouvir em nossas mentes todas as ondas radiofônicas que cruzam inauditas o nosso caminho. Se a proteção desaba, o caos mostra os dentes.

A impressão que tenho é que estamos vivendo algo parecido com isso. O pano de fundo é o avanço tecnológico que, como uma súbita mutação, não só amplia a velocidade e o volume das informações a que temos acesso, como também parece despertar em nós uma voragem descomunal e insaciável por elas.
O nervo do problema é que existe um descompasso essencial entre esse apetite desgovernado por doses adicionais de informação, de um lado, e a capacidade limitada do nosso cérebro de assimilá-las, digeri-las e integrá-las em um todo coerente e dotado de significado, de outro. A resultante é o mal-estar da sobrecarga de informação e da dispersão da atenção. Somos obesos de informação, mas famintos de sentido.

O que fazer? O grande desafio, creio, será reconhecer e aceitar os limites da nossa capacidade interna de processamento e conseguir domar a voragem quase compulsiva que com frequência nos leva a agir com base na crença de que mais informação é sempre melhor. Será? É o que questionava, no século 19, o escritor romântico americano Henri Thoreau: "Nós estamos com enorme pressa para construir um telégrafo magnético do Maine para o Texas, mas pode ser que o Maine e o Texas nada tenham de importante a comunicar... É como se o objetivo fosse falar depressa e não falar de modo sensato".
Há um trade off entre quantidade e qualidade; entre rapidez e profundidade. O que nos falta é o aprendizado e o autocontrole necessários para seguir uma dieta informacional equilibrada. Abrir e explorar, é certo; mas também saber fechar e ruminar.

Eduardo Giannetti
Faculdades Ibmec/SP

GIANNETTI, Eduardo. Obesos de informação, famintos de sentido. Atividades & Experiências, Curitiba, n. 8, p. 40-41, 2003.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Mais de 20% dos municípios não têm bibliotecas públicas, diz censo

Mais de 20% dos municípios não têm bibliotecas públicas, diz censo

Censo foi realizado no ano de 2009 em todo o país.

Ministério diz que em algumas cidades já houve implementação.

Eduardo Bresciani Do G1, em Brasília

O Ministério da Cultura divulgou nesta sexta-feira (30) um censo sobre as bibliotecas públicas municipais em todo o Brasil. O estudo foi realizado no ano de 2009 e constatou que 21% dos municípios não têm o serviço.

O Ministério da Cultura esclarece que em alguns casos pode ter havido a implantação após a realização do censo. A pesquisa foi realizada pela Fundação Getúlio Vargas, a pedido do ministério. O levantamento aconteceu entre setembro e novembro do ano passado. Foram 4905 municípios visitados e outros 660 monitorados por telefone.

Segundo os dados do estudo, existem 4.763 bibliotecas públicas em 4.413 municípios e 1.152 cidades estavam sem este serviço no ano passado. O censo aponta que em 13% dos municípios brasileiros haviam espaços em implementação ou em processo de reabertura. Em 8% das cidades, no entanto, as bibliotecas estavam fechadas ou nunca existiram e não havia previsão de abertura.

De acordo com o levantamento, o estado do Tocantins é o que tem a maior proporção de bibliotecas por habitantes. São 100 bibliotecas públicas no estado que tem população estimada em cerca de 1,29 milhão. Na sequência aparecem os estados de Santa Catarina, Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Mato Grosso.

A pior proporção acontece no Amazonas, onde há apenas 24 bibliotecas públicas em um estado com mais de 3,3 milhões de habitantes. Também tem uma proporção baixa o Distrito Federal e os estados de Rio de Janeiro e Acre.

Em relação aos municípios, a cidade de Barueri (SP), é a que tem mais bibliotecas em proporção a população. São 11 espaços na cidade de 270 mil habitantes. Na segunda colocação aparece Curitiba, que tem 55 bibliotecas públicas e uma população de cerca de 1,8 milhão.

O censo mostra que as bibliotecas públicas emprestam, em média, 296 livros por mês. Quase a metade das bibliotecas existentes (45%) tem computador com acesso a internet, mas somente 29% oferecem este serviço para a população. O levantamento mostra que 65% dos usuários utilizam as bibliotecas públicas para pesquisas escolares.

Segundo a pesquisa, somente 12% das bibliotecas existentes estão abertas aos sábados e somente 1% está à disposição também no domingo. Somente 24% delas ficam abertas no período noturno no meio da semana. A pesquisa mostrou ainda que 84% dos dirigentes destas bibliotecas são mulheres e 57% dos dirigentes têm ensino superior.

O censo afirma que 91% das bibliotecas não possuem condições de acessibilidade para pessoas com deficiência visual e 94% não tem serviços para permitir o acesso de pessoas com demais necessidades especiais.

O levantamento mostra ainda que 83% do acervo das bibliotecas é proveniente de doações. Em 13% das bibliotecas o acervo é inferior a 2 mil volumes e em 35% das bibliotecas o acervo está entre 2 e 5 mil volumes. Em 25% das bibliotecas os usuários podem ter acesso a mais de 10 mil volumes.

O Ministério da Cultura lançou nesta sexta-feira um edital para dar apoio às bibliotecas públicas municipais. Segundo a pasta, serão investidos R$ 30,6 milhões em 300 bibliotecas para a modernização de equipamentos, construção de espaços e adequação dos locais a portadores de deficiência.

Fonte: G1

quinta-feira, 29 de abril de 2010

FUTEBOL: filósofos alemãs X Filósofos Gregos

Patida entre os filósofos alemães contra os Filósofos gregos. A atração foi produzida pelo grupo de humor Monty Phyton. Está muito bom!!!!!!!!!


terça-feira, 27 de abril de 2010

ALISADORA DE MACHO?


ALISADORA DE MACHO
[Maio/2009]

Renata Curty

Não senhor! Aqui não oferecemos esse serviço!

O anúncio on-line dizia:

“Vaga para Indústria de grande porte do setor de fundição e que atua no setor automotivo”.

Antes de me cadastrar no site: pensei: será desafiante, mas vou tentar!

Seria meu primeiro emprego após seis anos de muita teoria e alguns estágios. A angústia batia forte, há uma semana passava por exames e testes pré-admissionais, mas a preocupação não era com a dolorida vacina antitetânica e todos os processos de contratação comuns às grandes empresas e sim, com o temido usuário especializado. Darei conta?

Mas qual o problema? Sou curiosa, havia pesquisado o site da empresa, lido algumas reportagens e procurado inteirar-me das atividades que a empresa exercia. Circulava por normas técnicas, catálogos e livros de mecânica, usinagem, tratamento térmico, fundição, ensaios destrutivos e não-destrutivos, etc. Termos estranhos recebiam destaque nas seções de assunto, e alguns desdobramentos da CDU eram utilizados para representar todas as adjetivações e derivações possíveis do ferro, que para mim até então era só um: o tal do Fe da tabela periódica.

Tudo muito novo e ao mesmo tempo instigante. Tinha várias idéias em mente. As lições do banco da universidade efervesciam. Mas ainda sabia muito pouco das potencialidades de informação daquele acervo, e tão menos do usuário e de suas ditas “necessidades informacionais”. Bom, mas a idéia aqui não é relatar o processo de envolvimento ou aprendizado e interação com os jargões técnicos, até porque esse é um processo que se dá naturalmente, vivenciando as atividades cotidianas. Então volto ao ponto que pretendia: o “causo” em questão.

Naquele dia a biblioteca técnica estava no que costumamos dizer “às moscas”, poucos atendimentos presenciais, porém muitas demandas por telefone e e-mail. Escutei alguém subindo as escadas, enquanto inseria dados no sistema de normas. Um usuário ainda com muita fuligem no uniforme azul, retirando o capacete, os protetores auriculares e os óculos de proteção, aproximou-se da mesa de atendimento, cumprimentou-me e disse:

- Preciso fazer uma pesquisa. O que você tem sobre alisadora de macho?

Pensando ter entendido mal, pedi para que ele repetisse a pergunta.

- Alisadora de macho. Preciso saber sobre alisadora de macho.

Em algumas situações embaraçosas é natural a expressão atestar um leve sorriso amarelo, mas o constrangimento era tanto que se fosse fotografada naquele momento, certamente a expressão seria a de quase junção das sobrancelhas e de boca semi-aberta. Pensei: deve ser alguma brincadeira! Afinal havia recém-chegado e assumido a função. Tive vontade de dizer para quebrar o gelo, o que faria o usuário assumir a brincadeira: Não senhor! Aqui não oferecemos esse serviço! E cairíamos na risada.

Mas decidi manter a postura e achei melhor não especular se tratava de uma brincadeira ou não, até porque o usuário permaneceu muito sério.

Primeira idéia instantânea e óbvia para alguém que ainda não conhecia minuciosamente o acervo e teria de prontidão um título a sugerir: procurar no sistema da biblioteca. Resultado: 0 itens localizados. Todas as truncagens, expressões booleanas do sistema e variações possíveis e imagináveis foram realizadas na tentativa de ao menos uma resposta e... 0 itens localizados.

Não poderia ser pior. Usuário já olhando ao redor, batendo os dedos na mesa como se tocasse um instrumento em ritmo acelerado, eram sinais de impaciência e de avaliação da situação.

Por não se tratar de um atendimento telefônico ou via e-mail, não havia como pedir mais alguns minutos e valer-se da miraculosa pesquisa no Google e ver no que iria resultar, identificar termos correlatos, o famoso recurso: você quis dizer?

Jargão e linguagem natural! Grandes desafios para os bibliotecários iniciantes em uma especialidade!

Tinha que prosseguir, questão de honra! Para tanto, a saudosa universidade e as lições de Denis Grogan em “A prática do serviço de referência”, felizmente, não falharam à memória. Pode parecer tecnicista, mencionar o Grogan sendo que esse processo tem caráter intuitivo na maioria dos casos, mas as aulas de discussões do livro e os exemplos vieram naturalmente e não premeditado como se tivesse puxado da gaveta e consultado uma cartilha de serviço de referência para bibliotecários iniciantes.

Entrevista de referência, a prosa investigativa do bibliotecário! Foi então que comecei a conversar e aproveitei para perguntar sobre a atividade dele na empresa, a intenção de acesso àquela informação.

Bom, a tal alisadora de macho existe, com algumas variações de nomes menos comprometedores. A título de esclarecimento, o macho no setor de fundição é um nome alternativo para molde. A tal alisadora de macho era a máquina, numa expressão coloquial do pessoal do chão de fábrica, que ajudava no acabamento do molde.

Após o ocorrido, soube que a tal expressão alisadora de macho em outros tempos já havia causado outras situações no mínimo engraçadas no RH da empresa por conta dos maridos enraivecidos. A carteira de trabalho das mulheres que atuavam na função de retirada de rebarbas dos moldes também recebia esse nome. Imagine olhar a carteira da esposa com orgulho do emprego com carteira assinada e... ALISADORA DE MACHO. Obviamente optaram por alterar!

Peças que os jargões e a linguagem natural podem nos pregar!

Fonte: Infohome