NOTÍCIAS ATUALIZADAS NA HORA

TUDO SOBRE BIBLIOTECA, BIBLIOTECONOMIA, ARQUIVOLOGIA, CIÊNCIA DA INFORMAÇÃO, MUSEOLOGIA, TECNOLOGIA, SOFTWARES E MAIS..

terça-feira, 24 de agosto de 2010

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Escrevendo sobre o ato de escrever textos acadêmicos





"Na palavra falada temos que ser, em absoluto, do nosso
tempo e lugar; não podemos falar como Vieira, pois nos
arriscamos ou ao ridículo ou à incompreensão. Não
podemos pensar como Descartes, pois nos arriscamos ao
tédio alheio. A palavra escrita, ao contrário, não é para
quem a ouve, busca quem a ouça; escolhe quem a entenda,
e não se subordina a quem a escolhe. Na palavra escrita
tem tudo que estar explicado, pois o leitor nos não pode
interromper com o pedido de que nos expliquemos melhor."
(Fernando Pessoa. O livro do desassossego)


"Não fomos construídos para ler. Na verdade, a leitura é uma aventura."
(Michael Merzenich, neurocientista)




Existe atualmente uma crise da escrita e leitura tradicional. Uma linguagem nova urdida no imediatismo dos meios digitais está querendo fechar um capitulo na história das narrativas impressas em formato papel. Desde 1990 as tecnologias da informação digital estão definitivamente inseridas no contexto do pensamento e dos atos para gerar e receber a informação. Fatos e ideias tinham um percurso formal e bem definido dentro de um mundo onde a textualidade era pautada pela escrita em papel. Existe, hoje, uma diferente configuração para plublicitar fatos e ideias.

O imaginário do receptor ampliado por novas visualizações na aventura hipertextual explodiu o formato dos meios tradicionais. Palavras e enunciados tem na condição digital um caminho de significantes liberados. Acredito que iniciamos um novo padrão da escrita e da leitura nestes tempos digitais. As pessoas, ainda escrevem com todo o maneirismo da escrita para o papel. Mas na tela, e só se pode ler um hipertexto na tela, existe um novo olhar para um novo documento que antes de tudo deve ser leve e agradável a esta apreciação diferenciada de uma leitura onde o imaginário se liberta no link. Uma escrita que não quer ser impressa.

Um artigo científico deve ser escrito com clareza, precisão e, sobretudo, quando todos vão ler na web com uma visualização adequada para esta leitura online. O leitor deve ficar interessado na narrativa para se manter conectado e ser capaz de entender o seu conteúdo facilmente. Uma escritura deve apresentar adequadamente os objetivos, o porquê e como foi escrito – a sua metodologia - os resultados encontrados e suas aplicações.

Artigos científicos e técnicos são recusados para publicação devido a qualidade na sua apresentação. Possuem frequentemente um excesso de informação irrelevante, ausência de conclusões precisas, tabelas e gráficos mal arranjados e em demasia e deficiência na apresentação dos resultados.

O escrever acadêmico é rico em citações. Mas deve ser lembrado que em cada citação o autor passa a autoria do seu texto para a voz de outrem. Se uma narrativa possui mais da metade de suas linhas como citações, incluindo alguns quadro e tabelas, a autoria é difusa e em rede. Não há mais um autor definido.

Pela mesma razão não se pode ter um texto de 20 páginas com muitas citações, links, quadros e tabelas de outra autoria e ao concluir tudo isso o seu autor o faz em apenas uma lauda. Como diria Pessoa “arriscamos ou ao ridículo ou à incompreensão”.

Além de manter uma boa organização na apresentação dos objetivos, fatos e conclusões, há que cuidar da ortografia e a gramática para que o leitor não tenha problemas para entender o que está dito. Ele não pode perguntar ao texto uma nova explicação.

Existem várias formas para se publicar um artigo técnico ou uma publicação científica, como: divulgação científica, revisão temática, descrição de aplicação de um modelo, um artigo de opinião do autor. Mas os artigos preferidos por editores e leitores são aqueles onde, em sua maior parte, existe um questionamento original e com nítida preponderância de enunciados reveladores de uma reflexão própria do um autor.

O que faz de um indivíduo um autor individualizado é o fato de podermos demarcar através de seu nome e da família de seus textos o pertencimento a uma área temática. Textos se conectam através de uma linhagem de vínculos semânticos determinados por aproximações e afinidades ao longo da institucionalização de um campo em uma cultura. O que faz de um indivíduo um autor é o fato de através de sua assinatura reconhecermos os textos que lhes são atribuídos. Se um conteúdo foi desenvolvido por uma rede ou um grupo de pesquisa esta autoria perde sua individualidade e é responsabilidade da rede ou grupo e não mais de pessoas únicas.

É preciso cuidar para não tipificar ou especificar seu artigo como uma simples descrição, sem uma reflexão, análise e avaliação de literatura; evitar textos cujo formato mostrem uma estrutura típica de uma “adaptação” de um trabalho de final de curso em novo aproveitamento. Os enunciados com autoria múltipla devem poder indicar a contribuição de cada um dos autores para o artigo de maneira clara e explicita no conteúdo. É preciso cuidar, ainda com narrativas excessivamente específicas e descritivas de um serviço ou produto ou que sejam fortemente baseados em um determinado contexto, um local geográfico ou uma empresa e seu produto.

Faça um título curto, que chame a atenção e reflita o tema principal do artigo. Não deve ser muito longo; registre o seu nome e a sua filiação institucional de forma uniforme e sistemática como usa em todas as suas publicações, para que seus artigos possam ser reconhecidos e citados de forma correta.

As pessoas se baseiam no Resumo ou no Abstract para decidirem ler ou não o artigo. Os indexadores eletrônicos da web vão varrer o seu resumo e o “abstract” para formar sua base. Assim, sintetize de maneira precisa os tópicos principais do artigo e as conclusões obtidas. Não utilize mais que 250 palavras nisso. Limite o número de tópicos inseridos para evitar confusão na identificação do conteúdo. Não inclua referências, figuras, citações, siglas ou equações matemáticas no resumo.

O Abstract é a versão do resumo em inglês. Por uma questão de coerência, ele deve possuir tamanho e significado compatíveis com o resumo. A versão em inglês não necessitará ser uma tradução literal do resumo, mas sim uma tradução adaptada à outra língua. Use frases de até 2 linhas no máximo. O leitor na língua inglesa não consegue perceber o significado em longas frases, entre vírgulas e com orações subordinadas e/ou coordenadas.

Por vezes, editores solicitam a inclusão de um conjunto de palavras-chave que caracterizem o seu artigo. Estas palavras serão usadas posteriormente para permitir, também, que o artigo seja encontrado por sistemas eletrônicos de busca. Por isso, você deve escolher palavras-chave que identifiquem os significados do texto. Um bom critério é selecionar as palavras que você usaria para procurar na web um artigo semelhante ao seu.

A introdução é uma síntese geral do conteúdo do artigo sem entrar em muitos detalhes. Especifique a relevância da publicação: explique como o trabalho contribui para ampliar o conhecimento em uma determinada área e se ele apresenta novos métodos ou modelos para resolver um problema; se ele é um trabalho de opinião do autor ou de um grupo de pesquisa. Apresente uma revisão da literatura com escritas básicas sobre o assunto, mas em sua maioria as publicadas nos últimos 5 anos e que sejam específica ao tópico.


Corpo do artigo:
Determine o problema estudado, explique a terminologia básica, e estabeleça claramente os objetivos e as hipóteses. Note que artigos são frequentemente rejeitados para publicação porque os autores apresentam os objetivos pouco claros ou de realização impossível.

Apresente as formulações teóricas. Informe a metodologia e todo instrumental e os métodos de trabalho de forma que os leitores sejam capazes de entender como o estudo foi realizado. Indique os procedimentos de uma forma coerente. Dê crédito ao trabalho de outras pessoas: não invente conceitos se não tiver uma base teórica que os suporte e forneça detalhes e definições dos conceitos discutidos ou indique a fonte que os explique.

Um problema comum em artigos técnicos é o uso inapropriado de tabelas e figuras que podem confundir os leitores. As falhas principais seriam: a falta de análises das estatísticas tabeladas, a abundância de percentuais e numerais no texto, falta de nitidez do escrito dentro de figuras, tabelas e gráficos.

Tabelas devem ser incluídas quando se deseja apresentar um número pequeno de dados e se recheadas de texto inibem a leitura. Lembrar que a maioria dos artigos vai ser disponibilizada na web e necessita ter uma boa visualização do conteúdo. Evite um conteúdo recheado indicações em caixa alta, negritos, e sublinhados. Nunca apresente uma sigla substituindo o extenso e não use frases de mais de 50 palavras. A seção Resultados deve apresentar as reflexões sobre as evidências de seu estudo. Se não puder escrever com facilidade sobre a importância de suas evidências o artigo não merece ser escrito. Conclusões e resultados devem ter pelo menos 5 laudas

Você pode iniciar a sua conclusão mostrando o que é novo e relevante em seu texto. A conclusão deve ser analítica, interpretativa e incluir argumentos explicativos. Deve ser capaz de fornecer um dialogo conceitual lógico e coerente dos resultados apresentados e suas possíveis aplicações. Forneça informações completas sobre as referências utilizadas. Um artigo mesmo com a forma de um ensaio de reflexão do autor, não deve conter menos que 50 referências. Insira como anexo as informações que não são precisam ser visualizadas no texto principal como: questionários, entrevistas, descrição do software utilizado, relação bruta de dados.


Roteiro para checar o texto antes de enviar para publicar:

1 Título: reflete o conteúdo, as palavras utilizadas são apropriadas.

2 Precisão do texto: as informações estão claras sem excessos de diagramas; os parágrafos estão adequados para leitura.

3 Estilo: o conteúdo está correto e de visualização adequada para a web?

4 Apresentações dos dados: tratamento das figuras e tabelas esta adequado; há algo que deveria ir para o anexo.

5 Justificativa: foram esquecidos artigos históricos ou clássicos na revisão; Foi obedecida uma cronologia;
como foi abordado o arcabouço teórico adotado e como este arcabouço está inserido no campo do artigo;

6 Está explicitado: o tipo de metodologia utilizada; os instrumentais e os métodos usados; o local de realização da pesquisa; ( entidades envolvidas); os critérios de inclusão e exclusão de dados; as variáveis estudadas e sua mensuração?

7 No conteúdo : as principais perguntas foram respondidas; os erros ortográficos e de concordância são só acidentais? O estilo de redação é bonito, direto, claro e objetivo? A sequência de raciocínio é lógica e faz sentido? A visualização é de boa qualidade tanto para a mídia impressa quanto digital; o mesmo estilo foi utilizado em todo o texto? Há excesso de formatação no texto ou muitas figuras, tabelas, etc.; os anexos são relevantes.

8 Resultados: os resultados encontrados são coerentes; foram apresentados de forma assimiláveis; foram enfatizados os resultados inovadores; foram discutidas as limitações dos resultados; a a apresentação está adequada.

9 Conclusões: estão apropriadas e corretas? ( em harmonia com os objetivos? Com a metodologia e os métodos? Com os resultados esperados?); as descrições das conclusões têm um espaço coerente para tratamento das reflexões finais do autor? Foram enfatizados os principais resultados encontrados; as questões colocadas no texto foram respondidas nesta finalização.


Finalizando é importante ressaltar que a velocidade da escrita, da leitura e sua assimilação mudaram, assim como mudou a quantidade de informação à qual estamos expostos. A intenção destas notas é evitar o estresse cognitivo do leitor, apresentando a informação de maneira visualmente destinada para a percepção amigável. Sempre é conveniente lembrar que: “toda leitura é uma aventura” e é o autor que registra o script dessa odisséia.

Aldo de Albuquerque Barreto
Fonte: Avoantes perdidos

quarta-feira, 7 de julho de 2010

A LEITURA - III – Quatro espécies de leitura.

Capítulo retirado do livro "A vida intelectual", de A.D. Sertillanges.
------------------

CAPITULO VII - A preparação do trabalho

A. – A LEITURA - III – Quatro espécies de leitura.

Concretizando um pouco mais, distingo quatro espécies de leitura. Lemos para nos formarmos e ser alguém; lemos com a mira nalgum fim particular; lemos para nos animarmos a trabalhar e praticar o bem; lemos por motivo de distração. Há leituras de fundo, leituras de ocasião, leituras de estímulo ou de edificação, leituras de repouso.

Estes gêneros de leitura devem utilizar as nossas observações; cada uma apresenta também exigências particulares. As leituras de fundo requerem docilidade, as Leituras de ocasião requerem mestria, as leituras de estímulo requerem ardor, as leituras de repouso requerem liberdade.

Quem se forma e deve adquirir quase tudo, não está em período de iniciativas. Quer se trate da primeira formação, de cultura geral, quer se encete o estudo de nova disciplina, de problema até aí descurado, precisamos mais de crer nos autores consultados do que criticá-los e, em vez de aproveitá-los, acomodando-os à nossa maneira de pensar, sigamos o caminho por eles primeiro trilhado. Querer agir demasiado cedo prejudica a aquisição; pede a prudência que comecemos por nos dobrar. ”É preciso acreditar no professor”, diz S. Tomás, depois de Aristóteles. O próprio Santo dá exemplo dessa obediência, que só lhe foi proveitosa.

Não quero dizer que nos entreguemos às cegas. Um espírito nobre não consente que o encadeiem. Mas assim como não se aprende a arte de mandar se não obedecendo, assim o domínio do pensamento só se obtém pela disciplina. Uma atitude de respeito, de confiança, de fé provisória, enquanto se não possuem todas as normas do juízo, é necessidade evidente que só passa despercebida aos presumidos e vaidosos.

Ninguém é infalível; mas o aluno é-o muito menos do que o mestre, e se recusa submeter-se, por uma vez que terá razão, subtrai-se vinte vezes à verdade e serra vítima das aparências. Pelo contrário, o crédito e a relativa passividade, que ao mestre concedem alguma coisa do que é devido à verdade, aproveitam a esta última e permitem utilizar as insuficiências, e as ilusões do professor. Ninguém sabe o que falta a um homem senão calculando a sua riqueza.

Comecemos por escolher os guias em quem confiar. A escolha dum pai intelectual é negócio muito sério. Aconselhamos S. Tomás para as doutrinas superiores; contudo, não podemos circunscrever-nos a ele. Três ou quatro autores estudados a fundo para a cultura geral, três ou quatro para a especialidade e outros tantos para cada problema que surja, é quanto basta recorremos a outras fontes a título de informação, não a titulo de formação, e só com isso já será diferente a atitude de espírito.

Essa atitude será mesmo diversa sob certos respeitos, pois quem se informa e quer utilizar não se encontra já em estado de pura passividade, mas tem as suas ideias prediletas, o seu plano; a obra consultada servir-lhe-á apenas de esteio. Requere-se, é certo, uma dose de submissão à verdade mais do que ao escritor, mas também a este último se deve dar fé, fé ( 1) Op.cit., pág. 246. compatível com a liberdade de seguir ou de rejeitar as conclusões a que ele chega.

Estas questões de atitude revestem suma importância; porque, consultar, como quem estuda, é perder tempo, e estudar como quem consulta, é ficar sozinho consigo e perder o beneficio que um iniciador vos oferece. Quem lê, com a mira num trabalho, tem o espírito dominado pelo que pretende realizar; não mergulha na onda, bebe nela; fica na margem, guarda a liberdade de movimentos, reforça as próprias ideias com o que de fora lhe advém, em vez de as afogar nas ideias de outrem, e sai da leitura enriquecido e não despojado, como sucederia, se a fascinação da leitura prejudicasse o intuito de utilização que a justificava.

Nas leituras de estímulo, a seleção, além das regras gerais apontadas, deve apelar para a experiência de cada qual. Aquilo que uma vez deu bom resultado d provável que o torne a dar segunda vez. Uma influência começa sempre por se reforçar, embora depois tenda a gastar-se com o tempo; o hábito aviva-a; uma penetração mais íntima aclimata-a em nós; a associação das ideias e dos sentimentos prende, a tal página, estados de alma que com ela despertam.

Ter assim, nos momentos de depressão intelectual ou espiritual, autores favoritos, páginas reconfortantes, tê-las à mão, prestes para inocularem no espírito a boa seiva, é recurso incomparável. Conheço pessoas a quem a peroração do Discurso fúnebre do Grand Condé reanimou anos seguidos, todas as vezes que se lhes secava a inspiração. Outros, no domínio espiritual não resistem ao Mistério de Jesus de Pascal, a uma Oração de S. Tomás, a um capítulo da Imitação de Cristo, a uma parábola do Evangelho. Observe-se cada qual, repare nos seus resultados, reúna em volta de si os remédios para as doenças da alma, e não hesite em repetir, até se fartar, o mesmo cordial ou o mesmo antídoto.

No que toca às leituras distrativas, parece não ter tanta importância a seleção; de fato, não a tem, relativamente. Contudo, não é indiferente distrair-se deste ou daquele modo, quando o fim em vista é voltar, nas melhores condições, ao que é a nossa razão de ser. Leituras há que não distraem suficientemente; outras distraem demasiado, com prejuízo do recolhimento que se lhes deve seguir; outras desviam-nos, no sentido etimológico, isto é, levam-nos para fora dos nossos caminhos.

Sei de alguém que se distraía de trabalhos árduos, lendo a História da Filosofia Grega de Zeller: era uma distração, mas insuficiente. Alguns saboreiam histórias apimentadas ou fantásticas que os dissociam; outros entregam-se a tentações que os fazem desanimar e lhes prejudicam a alma. Tudo isto é mau. Se os livros são servos, como os objetos de uso necessário à vida, devem-no ser sobretudo aqueles que só têm a desempenhar papel acessório. Ninguém se sacrifica por um leque.

Muitos pensadores encontram alívio e atrativo nas histórias de viagens e explorações, na poesia, na crítica de arte, na comédia lida em casa, nos livros de memórias. Cada qual tem seus gostos e o gosto, aqui, é o principal. Segundo S. Tomás, uma só coisa repousa verdadeiramente: a alegria; seria contra-senso querer distrair-se no tédio.
Lede o que agrada, o que não entusiasma demasiado, o que não prejudica e, já que sois consagrado, mesmo quando vos distraís, tende a inteligência de ler, em igualdade de proveito e de repouso, o que for útil de outra maneira e ajudar a completar-vos, a ornar o espírito, a ser homem.

A LEITURA II – Como escolher o que ler

Capítulo retirado do livro "A vida intelectual", de A.D. Sertillanges.
------------------

CAPITULO VII - A preparação do trabalho

A. – A LEITURA II – Como escolher o que ler

Nestas observações está incluído o principio de seleção. ‘Muito discernimento é preciso, escreve Nicole, para escolher o que há-de nutrir o espírito e servir de semente dos pensamentos. O que hoje lemos com indiferença despertará mais tarde e apresentar-nos-á, sem que nisso reparemos, pensamentos que serão causa de salvação ou de ruína. Deus sugere os bons pensamentos para nos salvar; o demónio acorda os maus pensamentos em nós latentes’(1).

Portanto, é urgente selecionar: selecionar os livros e selecionar nos livros. Selecionar os livros. Não acreditar no reclamo interesseiro nem no chamariz dos títulos. Ter conselheiros dedicados e sabedores. Dessedentar-se só nas fontes. Freqüentar apenas o escol dos pensadores. O que nem sempre é possível em matéria de relações pessoais, é fácil, e convém aproveitar, em matéria de leituras. Admirar de alma e coração o que merece ser admirado, sem contudo prodigar a admiração. Desdenhar das obras mal feitas, que provavelmente são mal pensadas.

Ler só obras de primeira mão, onde brilham as ideias mestras. Ora estas são pouco numerosas. Os livros repetem-se, diluem-se, ou então contradizem-se, o que é outra maneira de se repetirem. Olhando de perto, verificamos serem raras as descobertas do pensamento; o fundo antigo, ou antes o fundo permanente é o melhor; é mister que nele nos apoiemos para comungar verdadeiramente com a inteligência do homem, longe das pequenas individualidades balbuciantes ou bulhentas. É uma comerciante de modas (M.elle Bertin) quem diz: ”só é novo aquilo que se esqueceu”.

A maior parte dos escritores são apenas editores; é já alguma coisa. Voltemos, porém, ao assunto. Haveis de ler, sem prevenção, o que se escreve de bem; lereis os autores modernos, e tanto mais quanto precisardes de informações, de noções positivas em evolução ou em crescimento; quereis ser do vosso tempo; não deveis ser um ’tipo arcaico’. Contudo, não tenhais a superstição da novidade; gostai dos livros eternos, que encerram as verdades eternas.

Em seguida, deveis selecionar nos livros. Nem tudo é igual. Nem por isso haveis de assumir atitude de juiz; sede antes, para com o autor, um irmão, na verdade, amigo, e amigo inferior, visto que, pelo menos debaixo de certos aspectos, o tomais por guia. Sendo o livro um irmão mais velho, é mister honrá-lo, abri-lo sem orgulho, escutá-lo sem prevenção, suportar-lhe os defeitos, buscar o grão da palha. Mas sois homem livre; permaneceis responsável: reservai-vos o bastante para guardar a alma e, se necessário for, para a defender.

”Os livros são obras dos homens, diz ainda Nicole, e a corrupção do homem imiscui-se na maior parte das suas ações, e como ela consiste na ignorância e na concupiscência, quase todos os livros se ressentem destes dois defeitos (1)”. Daí a necessidade de filtrar para depurar, muitas vezes, durante a leitura. Para isso, confiar em Deus e no melhor de si, na parte de si que é filha de Deus e na qual um instinto de verdade, um amor do bem servirá de resguardo.

Além disso, lembrai-vos que até certo ponto um livro vale o que vós valeis, e o que o fizerdes valer. Leibniz utilizava tudo; S. Tomás extraiu dos hereges e dos paganizantes do seu tempo grande número de ideias, sem sofrer de nenhuma. O homem inteligente encontra em toda a parte inteligência, o louco projeta sobre todas as paredes a sombra da sua fronte estreita e inerte. Escolhei o melhor que puderdes; mas procurai que tudo seja bom, largo, aberto ao bem, prudente e progressivo.

( 1) Nicole, essais de morale contenus en divers traité, t.II, pág. 244, Paris, 1733.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Ler pouco "A vida intelectual", de A.D. Sertillanges

Capítulo retirado do livro "A vida intelectual", de A.D. Sertillanges. Baixe o livro aqui.
------------------

CAPITULO VII - A preparação do trabalho

A. – A LEITURA
I – Ler pouco.



Trabalhar significa aprender e significa produzir: em ambos os sentidos, o trabalho requer longa preparação, porque produzir é um resultado, e só aprende, em matéria árdua e complexa, quem primeiro atravessou o simples e o fácil: "devemos correr para o mar por meio dos regatos, e não de repente" diz S.Tomás.

Ora, a leitura é o meio universal para aprender, e é a preparação próxima ou remota para toda a produção. Nunca pensamos isoladamente: pensamos em sociedade, em colaboração imensa; trabalhamos com os trabalhadores do passado e do presente. Graças à leitura, pode compararse o mundo intelectual a uma sala de redacção ou repartição de negócios, onde cada qual encontra no vizinho a sugestão, o auxílio, a critica, a informação, o ânimo de que carece.

Portanto, saber ler e utilizar as leituras, é necessidade primordial que o homem de estudo não deve esquecer. Primeira regra: lede pouco. Em 1921, no jornal Le Temps, Paulo Souday que, pelo visto, se queria vingar de mim nalguma coisa, agarrou-se a este preceito: "lede pouco", e pretendeu descobrir nele laivos de ignorantismo. O leitor, se leu o jornal, sabe o valor daquela crítica e, sem dúvida, Paulo Souday também o sabia.

Eu não aconselho a restringir parvamente a leitura: tudo quanto fica dito protesta contra semelhante interpretação. Queremos formar um espírito largo, praticar a ciência comparada, manter o horizonte aberto diante de nós, o que não se consegue sem muita leitura. Mas muito e pouco só se opõem no mesmo terreno. Aqui, é preciso muito absolutamente, porque a obra é vasta; mas pouco em relação ao dilúvio de escritos de que a mais insignificante especialidade sobrecarrega hoje bibliotecas e as almas.

Proscrevemos, sim, a paixão de ler, a ânsia, a intoxicação por excesso de nutrição espiritual, a preguiça disfarçada que prefere ao esforço a frequentação fácil. A paixão da leitura, de que tantos se prezam como de preciosa qualidade intelectual, é tara, é paixão em tudo semelhante às demais paixões que absorvem e perturbam a alma, retalhando-a de correntes confusas que lhe esgotam as energias.

Leia-se com inteligência, não com paixão. Vamos aos livros como a dona de casa vai à praça, depois de cumpridas as ocupações quotidianas de acordo com as leis da higiene e da boa administração. A dona de casa não vai à praça com o mesmo intuito com que vai à noite ao cinema. O mesmo sucede com a leitura: é questão, não de gozar e de se embriagar, mais de governar e administrar bem a casa.

A leitura desordenada não alimenta, entorpece o espírito, torna-o incapaz de reflexão e concentração e, por conseguinte, de produção; exterioriza-o no seu interior, se assim se pode dizer, e escraviza-o às imagens mentais, ao fluxo e refluxo das ideias que ele se limita a contemplar na atitude de simples espectador. É embriaguez que desafina a inteligência e permite seguir a passo os pensamentos alheios e deixar-se levar por palavras, por comentários, por capítulos, Por tomos. A série de excitações assim provocadas arruina as energias, como a constante vibração estraga o aço. Não esperemos trabalho verdadeiro de quem cansou os olhos e as meninges a devorar livros; esse encontra-se, espiritualmente, em estado de cefalalgia, ao passo que o trabalhador, senhor de si, lê com calma e suavidade somente o que quer reter, só retém o que deve servir, organiza o cérebro e não o maltrata com indigestões absurdas.

Ide antes dar um passeio, ler no livro imenso da natureza, respirar o ar fresco, distrair-vos. Depois da actividade tomada voluntariamente, organizai a distracção voluntária, em vez de vos entregardes a um automatismo que de intelectual só tem a matéria, mas que em si é tão banal como o escorregar por uma encosta ou o escalar uma montanha.

Fala-se da necessidade de estar 'ao corrente', e decerto um intelectual não pode ignorar o género humano, menos ainda desinteressar-se do que se escreve na esfera da sua especialidade; cuidado, porém, não vá a 'corrente' arrastar todas as disponibilidades laboriosas e, em vez de vos levar para diante, imobilizar-vos. Para avançar, é preciso remar; nenhuma corrente, por si só, vos conduzirá aonde quereis chegar. Abri, por vós próprios, o caminho, e não enveredeis por todas as sendas que se vos oferecem.

A restrição deve afectar sobretudo as leituras menos substanciais e menos sérias. Não falemos do veneno dos romances. Um ou outro de quando em quando por distracção e para não perder de vista alguma glória literária; mas que seja pura concessão porque a maior parte dos romances abalam e não repousam, agitam e desorientam os pensamentos.

Quanto aos jornais, defendei-vos deles tanto mais energicamente quanto mais constantes e indiscretos são os seus ataques. Convém saber o que os jornais contêm; mas é tão reduzido o conteúdo! E seria tão fácil informar-se dele, sem necessidade de se instalar em intermináveis sessões da preguiça! Em todo o caso, há horas mais adaptadas para a corrida às notícias do que a hora do trabalho. O trabalhador consciencioso deveria contentar-se com a crónica semanal ou bimensal duma Revista, e recorrer aos jornais só quando lhe apontem algum artigo notável ou acontecimento grave.

Em resumo: podendo recolher-vos, ponde de parte a leitura; lede unicamente, excepto nos momentos de distracção, o que respeita ao fim em vista, e lede pouco, para não devorar o silêncio.

O trabalho permanente - "A vida intelectual", de A.D. Sertillanges

Capítulo retirado do livro "A vida intelectual", de A.D. Sertillanges, disponível gratuitamente para downloads aqui.
----------

CAPÍTULO IV - O tempo do trabalho
I - O trabalho permanente

Instintivamente queremos conhecer do mesmo modo que pedimos pão. Se os mais dos homens se deixam prender por desejos errôneos, o pensador é obsidiado pelo desejo de saber; porque o não utilizará, aproveitando-o como se aproveita um curso de água para mover uma turbina?

Será isso possível? Sim, é; a experiência e a psicologia o ensinam. O cérebro trabalha sem remissão; as turbinas, que reclamo, existem, giram, arrastando em suas voltas um sistema de rodas donde se escapam as idéias como as centelhas dum dínamo em pleno rendimento. Os processos nervosos encadeiam-se em série contínua e não param, do mesmo modo que os movimentos do coração ou dos pulmões. Que falta para aproveitar, em favor da verdade, esta vida permanente? Só a disciplina. É preciso que os dínamos estejam ligados às turbinas, as turbinas à corrente de água; é preciso que o desejo de conhecer acione regularmente, e não por intermitências, o funcionamento cerebral, consciente ou inconsciente.

A maior parte da atividade nervosa de nada serve, pela simples razão de não ser captada. A falar a verdade, nunca o será totalmente, porque o nosso poder sobre ela é relativo, e, se tentarmos forçar o rendimento, arriscamo-nos a quebrar a máquina. Mas para obter o possível, basta relativamente pouca dessa atividade, desde que saibamos cultivar o hábito. Este, bem montado, opera como segunda natureza. Têm aqui lugar os nossos conselhos práticos.

“Empenha-te em encerrar no cofre do espírito tudo quanto puderes, como quem pretende encher um vaso”, recomenda São Tomás ao homem de estudo. Mais abaixo voltaremos a esta comparação, que pode dar margem a equívocos; aqui trata-se do cuidado em adquirir, não da maneira. O que importa ao homem de verdade é compreender que a verdade está em toda a parte, como corrente contínua capaz de acionar a alma, mas que ele deixa passar em vão.

A sabedoria clama nas ruas, diz a Bíblia; eleva a voz nas praças públicas; prega à entrada dos lugares ruidosos, às portas da cidade: até quando, ó ignorantes, amareis a ignorância?... Convertei-vos... que sobre vós espalharei o meu espírito... estendo a mão e ninguém me dá atenção (Prov. 1, 20-24). Se esse apelo incessante em favor da verdade fosse escutado, alargaria o espírito e enriquecê-lo-ia mais do que muitas sessões laboriosas. Estas são necessárias; mas a luz que aí se concentra expandir-se-ia até iluminar quase toda a vida; estabelecer-se-ia uma corrente que atrairia para a lâmpada os resultados do pensamento difuso, e de lá reverteria para este mesmo pensamento, a fim de lhe comunicar orientação e fecundidade.

Que sucede quando quereis mobiliar um quarto? Em princípio, nem sequer pensáveis nos móveis. Circuláveis pelas ruas de Paris, onde abundam as lojas de antiquários, mas não reparáveis nelas. Desconhecíeis as tendências da moda, o valor provável de tal ou tal achado, a especialidade de tal bairro, os preços, etc. Mas, uma vez estimulado o espírito pelo desejo, tudo vos impressiona, tudo vos retém; dir-se-ia que Paris é um vasto armazém e no espaço de oito dias ficais ao par do que não lograríeis conhecer durante a vida inteira.

Ora, a verdade está mais espalhada que os móveis: clama nas ruas e não nos desampara, se a não desamparamos. As idéias estão nos fatos; estão também nas conversações, nos acasos, nos espetáculos, nas visitas e nos devaneios, nas leituras, por banais que sejam. Tudo contém tesouros, porque tudo está em tudo, e algumas leis da vida ou da natureza governa o mais.

Newton não teria descoberto a gravitação, se a atenção ao real o não tivesse advertido e disposto a reparar que as maçãs caem como os universos. As leis da gravitação dos espíritos, as leis sociológicas, filosóficas, morais, artísticas, não têm menos aplicação em toda a parte. Qualquer fato pode gerar um sublime pensamento. Em toda a contemplação, mesmo na de uma mosca ou de uma nuvem que passa, há oportunidade de reflexões sem-fim. Toda a captação de luz pode conduzir ao sol; todo o caminho aberto é corredor para Deus.

Ora, podemos captar todas essas riquezas estando presentes. Olhando tudo com espírito de inspiração, veremos em toda a parte lições, profecias da verdade ou confirmações, causas e conseqüências. Mas no mais das vezes estamos ausentes, nós ou a nossa atenção. “Toda a gente olha o que eu olho, mas ninguém vê o que eu vejo”, dizia Lamartine diante do mar encapelado. Habituai-vos, pois, a estar presentes a este jogo do universo material e moral. Aprendei a olhar; confrontai o que se vos oferece com as idéias que vos são familiares ou secretas. Numa cidade não vejais somente casas, mas vida humana e história. Que um museu vos não mostre apenas quadros, mas escolas de arte e de vida, concepções do destino e da natureza, orientações sucessivas ou diversas da técnica, do pensamento inspirador, dos sentimentos. Que uma oficina vos não fale apenas de ferro e de madeira, mas da condição humana, do trabalho, da economia antiga e moderna, das relações entre as classes. Que as viagens vos ensinem a conhecer a humanidade; que as paisagens evoquem a vossos olhos as grandes leis do mundo; que as estrelas vos falem das durações incomensuráveis; que as pedras do caminho sejam para vós o resíduo da formação da terra; que a vista duma família se associe em vós à das gerações, e que a menor conversa vos informe sobre a alta concepção do homem. Se não souberdes olhar assim, tornar-vos-eis banais, se já não sois. O pensador é filtro onde a passagem da verdade deixa o melhor da sua substância.

Aprendei a escutar, e escutai, primeiro, quem quer que seja. Se na praça se aprende a língua materna, como pretendia Malherbe, também na praça, isto é, na vida corrente se pode aprender a língua do espírito. Nas mais simples conversas circulam verdades sem conta. A mais pequena palavra escutada com atenção pode ser oráculo. Há ocasiões em que um camponês mostra maior sabedoria que um filósofo. Todos os homens se encontram no íntimo de si próprios, sempre que lá refluem, e se uma profunda impressão, se um regresso instintivo ou virtuoso à simplicidade original afastar os convencionalismos e as paixões que ordinariamente nos escondem a nossos olhos e aos dos outros, ouve-se um discurso divino todas as vezes que um homem fala.

Em cada homem está o homem todo, e daí podemos retirar uma profunda iniciação. Se fosseis romancistas, quanta riqueza aí recolheríeis! O maior romancista forma-se no limiar das portas, o menor na Universidade ou nos salões. Só que, em vez de se imiscuir, o grande observador reserva-se, vive para si, sobe, e, a mais insignificante vida afigura-se-lhe um soberbo espetáculo.

Ora, o que o romancista busca pode servir a todos, porque todos precisam desta experiência intensa. O pensador só é verdadeiramente pensador se encontrar no mais pequeno impulso de fora, a ocasião dum entusiasmo ardente. O seu caráter consiste em conservar, pela vida afora, a curiosidade da infância, a vivacidade de impressão, a tendência para ver tudo sob o ângulo do mistério, a feliz faculdade de encontrar em toda a parte surpresas fecundas.

No entanto, atenção, sobretudo se tendes a dita de tratar com alguém que sabe e que pensa. É pena que os homens de escola sejam tão pouco úteis aos que os rodeiam! Praticamente assemelham-nos aos simples de espírito; toma-se o que têm de comum e não o que têm de raro. Há neles um tesouro, mas brinca-se com a chave sem o abrir. As vezes sorrimo-nos do seu acanhamento, das pequenas excentricidades de pessoas abstratas, e nisso não há mal; o ridículo é tomar ares de superioridade, que esquecem o valor dos outros.

Os grandes valores estão assaz disseminados para que os deixemos sem uso. Empregam-se a si próprios e toda a gente se utiliza deles sem o saber; mas sabendo-o, recebe deles instrução e impulso capazes de decidirem, às vezes, duma vida inteira. Quantos que foram santos, generais, exploradores, sábios, artistas, por terem encontrado uma personalidade eminente e ouvido o som duma alma! Esse apelo mudo ecoou neles através de toda a existência; era um clamor que os impelia para a frente; levava-os uma onda invisível. A palavra de um grande homem, como a de Deus, é, por vezes, criadora.

Mas os grandes homens só são grandes após a morte. Em vida, quase ninguém repara neles. Talvez haja a vosso lado quem valha um Descartes e não lhe prestais atenção, não o interrogais, discutis com ele só por discutir, cortais-lhe a palavra para proferir bagatelas. E, se a despeito da sua potente grandeza de espírito, não revela tão potente envergadura, nem por isso consintais que ele sepulte ou gaste em silêncio a sua riqueza.

Observando e escutando – não falo da leitura, porque lá voltaremos – assimilareis e adaptareis às vossas necessidades o que houverdes adquirido. As grandes descobertas são apenas reflexões sobre fatos comuns a todos. Quantas vezes passamos sem nada ver, até que um dia o homem de gênio observa os laços existentes entre o que ignoramos e o que vemos constantemente. Que é a ciência senão a lenta e sucessiva cura da nossa cegueira? É verdade que a observação precisa ser preparada por estudos e soluções anteriores. Encontramos o que procuramos. Só é dado àquele que tem. Por isso eu falava dum vaivém entre as luzes interiores e as exteriores. O espírito deve manter-se em perpétua disposição de refletir, como em perpétua disposição de ver, de ouvir, de apontar a presa que passa, como bom caçador.

Precisando mais, dizemos que esta atenção de espírito pode aproveitar não só a nossa cultura geral, mas a nossa especialidade, ao nosso estudo atual, ao trabalho em gestação. Levai convosco os vossos problemas. O cavalo de aluguel entra na cocheira após a corrida; mas o corcel em liberdade sempre respira à vontade.

Encontrando-se a verdade em toda a parte e estando todas as coisas ligadas entre si, por que não havemos de estudar cada questão, relacionando-a com as demais? Tudo deve alimentar a nossa especialidade. Tudo deve testemunhar pró ou contra as nossas teses. O universo é, em grande parte, obra nossa. O pintor só vê a sua volta formas, cores, movimentos, expressões; o arquiteto equilibra massas; o músico percebe ritmos e sons; o poeta, motivos de metáforas; o pensador, idéias em ato.

Nessas atitudes não há particularismos estreitos; é questão de método. Não podemos abarcar tudo. Reserva-se o interesse para a livre observação, consagramos, a uma pesquisa particular, a atenção de sobresselente, e, “pensando sempre nisso”, como Newton, recolhemos elementos para uma obra.

O segredo está em ter sempre pensamento em expectativa. O espírito do homem é um ruminante. O animal olha ao longe, mastiga lentamente, colhe aqui um tufo, ali uma vergôntea, toma o prado a sua conta, e também o horizonte, compondo com aquele o leite, e com este a sua alma obscura.

Ensinam-nos a viver na presença de Deus; por que não viver também na presença da verdade? A verdade é como que a divindade especial do pensador. Tal verdade particular ou tal objeto de estudo podem estar de contínuo presentes ao espírito. Será sensato, será normal deixar o investigador no gabinete de trabalho, ter assim duas almas: a do trabalhador e a do homem folgado que circula? Tal dualismo é inatural, pois leva a crer que buscamos o bem por ofício e não por nobre paixão.

“Há tempo para tudo” (cfr. Ecle 3, 17), diz a Bíblia, e concordo que não se pode evitar a divisão; mas se de fato pensamos todo o tempo, por que não utilizaremos o pensamento em benefício do que nos inquieta?

Dir-se-á que semelhante tensão é incompatível com a saúde cerebral e com as condições da vida? De acordo; mas também não se trata de tensão, nem mesmo, ordinariamente, de vontade atual. Falei de hábito; falemos, se quiserdes, de subconsciência. O espírito tem o poder de funcionar sem nós, por pouco que preparemos a faina e tracemos de leve o esforço dos canais por onde correrão os seus veios obscuros.

Radicado em nós o desejo de saber e ateada a paixão da verdade, concentrada a atenção consciente sobre os fatos da vida próprios para entreter o fogo e satisfazer o desejo, o espírito assemelha-se a um galgo pronto para a caça. A tarefa já lhe não custa; obedece a uma nova natureza. Pensais tão facilmente numa direção, como outrora ao acaso.

Esta direção é, sem dúvida, só aproximada e seria absurda uma tensão excessiva; mas convirá recusar o que se pode, argüindo com o que se não pode? Tendes aí um imenso recurso; empregai-o, introduzindo um pouco de disciplina num trabalho cerebral que se efetua, mas sem vós e de maneira anárquica. Regulai esse trabalho, de sorte que o cérebro seja, também ele, um intelectual.

Mostrar-vos-á a experiência que isto não cansa, que, pelo contrário, poupa muitas canseiras; porque as descobertas feitas assim ao acaso, sem as buscarmos, simplesmente porque nos resolvemos e decidimos a não ser cegos, estas invenções, muitas vezes mais felizes porque mais espontâneas, incutem ânimo ao investigador, conservam-no alerta e bem disposto; ele espera com delícia a hora de retiro para fixar e desenvolver o resultado das pesquisas.

Alcança-se muitas vezes, desse modo, a ligação difícil, a saída que embalde se procurara à mesa de trabalho. O que não tinha relação com o trabalho conduz a alguma coisa que constitui o fundo do mesmo trabalho. A ciência laboriosa recebe daí nova luz; o homem sabe para onde vai e brevemente um lucro inesperado virá coroar os esforços envidados.

Este processo de acaso responde as contingências cerebrais e ao trabalho obscuro da associação das idéias. Muitas leis se verificam aí, sem que haja lei para a sua aplicação a uma ou a outra, a tal ou a qual hora, e tudo isto se combina sem nossa intervenção – quer dizer, sem que a vontade intervenha, só debaixo da impressão do desejo que é a alma do pensador e que o qualifica; como o jogo qualifica a infância, como o amor qualifica a mulher – isto não é o excesso de carga que se supõe.

Cansa-se porventura a mulher que, durante o passeio, detém-se a espiar as homenagens dos transeuntes, ou a moça à cata de ocasião de rir, ou o rapaz a espreita da oportunidade de brincar? O espírito que espreita a verdade por amor, não por constrangimento, por tendência a princípio instintiva, depois cultivada, mas amorosa e apaixonadamente, também não sofrerá mais por isso. Diverte-se, caça, entrega-se a um desporto útil e inebriante, longe do esforço concreto e voluntário das horas de concentração.

Deste modo o sábio passeia, por todos os tempos e em todas as estradas, um espírito maduro para aquisições que o vulgo descura. A seus olhos, a mais humilde ocupação é o prolongamento da mais sublime; as visitas de cerimônia são inquéritos felizes, os passeios explorações, as suas audições e respostas mudas um diálogo que mantém, nele, a verdade de acordo consigo própria. Por toda a parte o seu universo interior se confronta com o outro, a sua vida com a Vida, o seu trabalho com o incessante trabalho dos seres, e ao sair do estreito espaço em que o seu estudo se concentra, sente a impressão, não de abandonar a verdade, mas de lhe abrir a porta de par em par, a fim de o mundo drenar para ele toda a verdade que se gasta nos seus potentes folguedos.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Como Utilizar um Livro


Aprenda em 2 minutos Como Utilizar um Livro. Super fácil e prático. Muito bom!!!